eu comigo aqui e agora
marina colassanti
Amar as coisas que eu estou fazendo
e o modo como eu as faço.
Amar as minhas limitações,
como amo as minhas possibilidades
e nos meus acertos e erros
amar o meu projeto que vai se transformando em obra
no trabalho da construção de mim mesma.
Amar-me como eu estou aqui e agora.
Vivendo a vida simplesmente,
naturalmente
com o ar que eu respiro
o chão que eu piso
as estrelas que eu sonho.
Às vezes gostar de mim é um desafio
uma prova de fogo
que revela se eu realmente me amo
ou apenas finjo amar-me.
Gostar de mim na perda
quando a vida me fecha uma porta
sem nenhum aviso ou explicação
Gostar de mim quando me comparo com os outros,
quando me avalio pelos padrões estabelecidos
de sucesso, beleza, inteligência, poder,
deixando de amar o que eu sou
em nome daquilo que me falta
ou daquilo que me sobra
em relação ao meu semelhante.
Gostar de mim quando erro
quando fracasso
quando não dou conta
quando não faço bem feito
e ainda encontro quem me critique
ou zombe de mim por eu ter sido
apenas o que eu sou:
- limitada, vulnerável, imperfeita, humana.
Gostar de mim no fundo do poço,
Cabeça a mil, coração a zero,
e ainda assim ser capaz de ouvir e de respeitar
as referências do meu próprio corpo
como um amigo fiel, atento e carinhoso.
Estar comigo e me fazer companhia
quando mais ninguém parece estar disposto
a me acolher e a me aceitar.
Estar do meu lado,
ainda que tudo e todos permaneçam contra mim.
Minha vida me pertence de fato e de direito
e posso me dispor dela da maneira que eu bem entender.
Se a minha escolha não for semelhante à sua
não posso me entristecer
nem devo me sentir infeliz por não receber o seu aplauso:
- eu sou eu e você é você.
Amar é descobrir que eu sou eu
e o outro é o outro.
Não é preciso que eu me justifique com você a todo o momento
buscando a sua aprovação para o que eu faço
e para o modo como eu estou fazendo:
- amar é reconhecer e aceitar as nossas diferenças
e me amar é dar-me o direito de ser diferente
ainda que às vezes isso represente ser rejeitada por você.
Amar é dar a mim o que é meu
para dar a você o que é seu.
Amar-me é responder presente
à chamada do presente.
Estar presente é estar inteiro
e estar inteiro é estar consciente
das partes nem sempre lógicas e coerentes
que constituem o meu ser aqui e agora.
Estar presente é respirar.
Prender o fôlego é fatal;
- morro para a vida agora
em nome de alguma coisa
que eu penso estar me faltando
que eu penso que me faltará.
Presente é
o presente que a vida me dá
a todo momento.
- devo recusar?
Meu passado é uma gaiola de ferro
Meu futuro é uma gaiola de vento
Uma me prende por ser tão certa e definitiva
outra, por ser tão vaga e absurda.
Só no presente eu posso voa
Meu trilema:
querer
poder
e dever
Gostar de mim
é fazer aquilo que eu devo
como desculpa para coisas que eu realmente não posso
A vida é a síntese de todos os opostos
que constitui a vida:
- nascimento e morte
alegria e tristeza
sucesso e fracasso
acerto e erro
alto e baixo
bom e mau
prazer e dor
Experimento o verdadeiro auto-amor
quando descubro,
sob o véu dos meus conflitos
a maravilhosa harmonia que existe entre todos os opostos.
conheço os sintomas da minha depressão:
penso nas coisas desagradáveis
q estão ocorrendo à minha volta;
penso nos aborrecimentos
q estas coisas estão me trazendo;
penso em como sou impotente
p mudar o curso dos acontecimentos;
penso q eu sou mesmo uma pobre-coitada,
vítima das circunstâncias...
penso. é o bastante.
Gostar de mim
é ser capaz de me sentir
antes de me pensar.
gostar de mim
é mergulhar na dor que me chega
ao invés d evitá-la a todo custo
(a dor é um buraco às avessas:
qto mais eu afundo mais eu volto à superfície)
amar a mim mesma
é algo muito diferente
de ser egoísta.
só alguém q não se ama
alguém q despreza o tesouro
q possui no seu interior
é capaz d tornar-se egoísta.
alguém q se torna egoísta
quando não se sente importante para si mesmo
quando não consegue se amar
quando eu sou a pessoa mais importante do mundo para mim mesma,
entre eu e eu acontece o verdadeiro amor,
o amor q tanto me falta quando eu me rejeito e me
desprezo em nome de ser a pessoa mais importante do mundo para os outros.
o q sinto, o q faço
de onde vim, para onde vou
é no outro q eu traço
o perfil do q sou.
o q vejo no outro é a minha própria imagem refletida.
(é inútil eu querer me enganar.
só vejo uma espinha no espelho
se o meu rosto tiver mesmo uma espinha...)
qdo eu compreendo o q se passa comigo
posso compreender o que se passa com o outro
o outro deixa d ser um enigma
qdo eu compreendo o enigma q sou.
eu me relaciono com as outras pessoas
do mesmo modo como eu me relaciono comigo.
se eu me amo, não sei te odiar
se eu me odeio, não sei te amar
se me desprezo, não sei te respeitar
se eu me respeito, não sei te desprezar
como eu te aceitar, se eu me rejeito?
como eu te rejeitar, se eu me aceito?
celebro no amor a mim mesma
o nascimento do amor pelo meu próximo
observo o meu ritmo
a maneira pela qual eu existo
e funciono como pessoa
sou um processo em permanente transformação
(todas as vezes q eu saio do meu ritmo eu danço...)
trata-se da minha vida,
da única coisa q eu sou e possuo nesse mundo.
posso fazer dela o q eu quiser:
viver do meu modo, segundo o meu ritmo,
correndo risco d sentir-me traída e abandonada
em relação a mim mesma
posso me decidir por mim
ou me decidir pelos outros.
mas qualquer q seja a minha escolha
terei q carregar sozinha o peso d minha decisão
para lhe dizer eu te amo
devo aprender a me dizer eu me amo.
do contrário meu amor por vc
é apenas uma desculpa
um artifício para conservá-lo
na minha coleção d objetos úteis.
antes d vc existe
EU,
sem que isso signifique presunção da minha parte
ou menosprezo por sua pessoa.
hoje, eu amo mais a mim do q a vc
antes d estar com vc, estou
COMIGO
não lá, num lugar imaginário d encontro, mas
AQUI
não ontem ou amanhã mas
AGORA.
para raquel macedo, in memoriam
querida amiga q foi quem me apresentou esse texto há mais d dez anos.
